Espera e tensão
Mais uma vez, superlotação no Pronto-Socorro
No lugar onde devem ser acolhidos entre 40 e 50 pacientes, o total chegou a 80 na quarta-feira
Jô Folha -
A cena, mais uma vez, é de superlotação no Pronto-Socorro de Pelotas (PSP). Macas e cadeiras pelos corredores. Pacientes no aguardo de avaliação ou de resultado de exames. Familiares angustiados na calçada. Do lado de dentro, onde deveriam estar acolhidas entre 40 e 50 pessoas, o total chegou aos 80 na quarta-feira (6). Nesta quinta (7), com encaminhamentos à rede hospitalar e à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Areal, o número caiu para 65.
O cenário ainda é de angústia e indignação. O tema foi, inclusive, um dos pontos cobrados da secretária de Saúde, Roberta Paganini, em reunião periódica chamada pela Comissão de Saúde, na manhã desta quinta-feira.
"A gente não quer luxo, mas quer um mínimo de dignidade". As palavras ganham tom de desabafo e não é para menos. Desde segunda-feira (4), quando a idosa de 92 anos teve um infarto, a família passou a contar as horas para a transferência a leito hospitalar. Mas falta clareza nas informações. E, nos flashes que ela tem de lucidez, o filho enxerga mais sofrimento. "Toda essa situação aqui, com muita gente, aumenta a tensão", preocupa-se. "E tá todo mundo colado, sem distanciamento", alerta, com receio da circulação do novo coronavírus.
À espera de avaliação neurológica
Pela segunda vez na semana, a jovem de 34 anos procurou o PSP, na expectativa de passar por avaliação neurológica e poder ser encaminhada à cirurgia na coluna. No começo da tarde, já eram mais de sete horas de espera, sem perspectiva de atendimento efetivo. Na segunda-feira, a paciente teria deixado o local, após mais de 12 horas, e voltou para casa sem qualquer resposta.
"Assim tá difícil. É gente em cima de gente, todo mundo amontoado e até agora o neuro não viu minha mulher", ressalta o marido, mas prefere não ser identificado. Enquanto isso, agravam-se as dores provocadas pela hérnia de disco, que já interferem na capacidade de movimentar as pernas - conta o funcionário público.
Em busca do diagnóstico, a família correu atrás de dinheiro emprestado para consultar especialista e realizar ressonância. Agora, com a certeza de que o tratamento requer procedimento cirúrgico, não haverá outro caminho possível: terão de recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS). "Acho que pensam que nós temos condições porque fizemos atendimentos particulares, mas se não tivéssemos dado um jeito, não saberíamos até hoje o que ela tem".
O que diz a prefeitura
Ao conversar com o Diário Popular, na tarde desta quinta-feira, a secretária de Saúde, Roberta Paganini, admite: "Essa situação não é novidade. Era algo que ocorria [antes da pandemia], principalmente em períodos de inverno". E a solução definitiva dependeria da construção do Hospital de Pronto-Socorro, anunciada nos últimos dias - argumenta. A população, todavia, só deverá sentir os efeitos no final de 2023, se todos os prazos de licitação e de execução da obra forem cumpridos - o que, infelizmente, não costuma ocorrer nos investimentos públicos.
Entre as explicações para a sobrecarga de pacientes, Roberta destaca três fatos principais: o ritmo da cidade que começa a voltar ao normal e acaba por provocar situações como acidentes de trânsito, a estrutura limitada nos hospitais que precisam manter as alas Covid e o agravamento dos casos de saúde que não tiveram o acompanhamento devido durante a pandemia e agora estouram na porta do Pronto-Socorro de Pelotas, referência - inclusive para região - aos quadros de urgência e emergência.
"Uma solução imediata não se tem", admite a secretária de saúde. Para tentar amenizar a situação, a prefeitura estaria buscando meios para agilizar acesso a exames e consultas com especialistas. "Também pedimos que a comunidade procure os demais serviços, como a UPA Areal, que tem estado vazia".
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